Entenda o que é net metering, como funciona o sistema de compensação de energia, como os créditos são calculados e o que mudou após a Lei 14.300.
Você instalou energia solar e a distribuidora disse que vai “compensar” a energia que você injetar na rede. Mas como exatamente esse crédito funciona? Quanto vale cada kWh injetado? Os créditos somem se não usar no mês? E o Fio B que estão cobrando muda alguma coisa no seu crédito?
O net metering — ou Sistema de Compensação de Energia Elétrica (SCEE) no Brasil — é o mecanismo que torna a energia solar financeiramente viável para quem está conectado à rede. Sem ele, o excedente de energia gerado seria desperdiçado. Com ele, seu medidor funciona nos dois sentidos: conta a energia que você consome e desconta a energia que você injeta.
A Lei 14.300/2022 reorganizou as regras desse sistema e criou um calendário de mudanças que vai até 2028. Entender esse calendário é fundamental para calcular o retorno real do seu investimento em energia solar hoje.
Onde e Para Quem o Net Metering se Aplica
O SCEE se aplica a qualquer gerador de energia renovável conectado à rede de distribuição com potência instalada de até 5 MW, segundo a Resolução Normativa ANEEL 1.000/2021 e as regras da Lei 14.300/2022. Na prática, abrange:
- Sistemas residenciais (geralmente de 3 a 15 kWp)
- Sistemas comerciais e industriais de pequeno e médio porte
- Sistemas em condomínios com rateio entre unidades (geração compartilhada)
- Sistemas em propriedades rurais conectadas à rede
- Usinas de geração distribuída remota (modelo de assinatura solar)
A geração distribuída remota, que permite que créditos gerados em uma usina distante sejam transferidos para unidades consumidoras, também usa o SCEE como base — mas com regras específicas de cadastro e transferência. Para entender como a geração distribuída funciona em detalhes, veja o guia completo.
Como o Sistema de Compensação Funciona na Prática
O net metering no Brasil funciona por créditos de energia, não por pagamento em dinheiro. Isso é diferente do modelo adotado em alguns países, onde a distribuidora compra a energia excedente. Aqui, o excedente vira crédito e é descontado nas faturas seguintes.
O ciclo mensal do SCEE
No período de apuração (geralmente mensal), a distribuidora lê dois valores no seu medidor bidirecional: a energia consumida da rede e a energia injetada na rede pelo seu sistema solar.
Se você consumiu mais do que gerou: paga a diferença normalmente (mais a taxa de disponibilidade mínima e os encargos fixos, incluindo o Fio B).
Se você gerou mais do que consumiu: o excedente vira crédito em kWh, registrado no seu cadastro junto à distribuidora. Esses créditos são usados automaticamente nas faturas dos meses seguintes.
Quanto vale cada crédito
Cada kWh de crédito tem o mesmo valor da tarifa de energia que você pagaria para consumir esse kWh da rede. Isso é diferente de receber o preço de geração da distribuidora (que seria muito menor). Na prática, 1 kWh de crédito = 1 kWh que você não vai pagar na conta.
A exceção é a tarifa binômia, em discussão via MP 1300: se aprovada, ela separa a conta em parcela de consumo (kWh) e parcela de demanda (kW). Os créditos solares compensariam apenas a parcela de consumo — o que reduziria o valor efetivo dos créditos. Vale acompanhar: a Câmara dos Deputados aprovou em setembro de 2025 uma versão da MP 1300 que retirou os trechos que ameaçavam a geração distribuída, mas o debate regulatório segue aberto nas MPs subsequentes.
Prazo de validade dos créditos
Os créditos de energia acumulados têm validade de 60 meses (5 anos) a partir do mês de geração, segundo a Resolução Normativa ANEEL 1.059/2023, que regulamentou a Lei 14.300. Após esse prazo, os créditos expiram e são revertidos para a modicidade tarifária do sistema, sem ressarcimento ao consumidor.
Na prática, sistemas bem dimensionados geram créditos no verão (meses de maior irradiação) e os consomem no inverno (meses mais nublados). O acúmulo de 5 anos raramente chega ao vencimento em instalações residenciais com consumo estável.
Portabilidade de créditos entre unidades
A Lei 14.300/2022 permite que créditos gerados em uma unidade sejam transferidos para outras unidades do mesmo titular ou de titular diferente, desde que conectadas à mesma distribuidora. Isso abrange:
- Compensação na conta do cônjuge ou de parentes até 2º grau
- Compensação em múltiplas unidades do mesmo CNPJ
- Geração compartilhada em condomínios com rateio definido
A transferência entre distribuidoras diferentes não é permitida — créditos gerados em Minas Gerais (Cemig) não podem ser usados em São Paulo (Enel).
O Fio B e seu Impacto no Net Metering
O Fio B é a taxa de uso da rede elétrica — o pagamento pela infraestrutura de transmissão e distribuição que você usa ao injetar e ao consumir energia. A Lei 14.300/2022 criou um cronograma de cobrança progressiva sobre os sistemas de geração distribuída:
| Ano | Fio B cobrado | Impacto no crédito | Quem é afetado |
| Até jan/2023 | 0% | Nenhum (isenção total) | Sistemas antigos mantêm isenção |
| 2023–2025 | 15% a 45% (progressivo) | Redução pequena | Sistemas novos nesse período |
| 2026 | 60% | Redução moderada | Todos os sistemas novos |
| 2027 | 75% | Redução significativa | Todos os sistemas novos |
| 2028 em diante | 100% | Redução máxima | Todos os sistemas novos |
Fonte: Lei 14.300/2022 e ANEEL. Sistemas instalados antes de janeiro de 2023 têm direito adquirido à isenção total por 25 anos.
Para entender o impacto financeiro concreto do Fio B no retorno do seu sistema, veja a análise completa sobre como a cobrança de 60% afeta o retorno em 2026.
O Medidor Bidirecional e o Processo de Cadastro
Para participar do SCEE, o sistema solar precisa ter um medidor bidirecional instalado pela distribuidora. Esse medidor registra separadamente a energia consumida da rede e a energia injetada pelo sistema solar.
O processo de solicitação é feito pelo instalador junto à distribuidora, com os documentos do projeto: memorial descritivo, ART (Anotação de Responsabilidade Técnica) do engenheiro responsável, diagrama unifilar e laudo de conformidade do inversor. O prazo para a distribuidora instalar o medidor e ativar o SCEE varia: a ANEEL estabelece prazo máximo de 34 dias úteis para sistemas de até 75 kW, conforme a Resolução Normativa 1.000/2021.
Para ver o processo completo de homologação passo a passo, incluindo o que mudou com a Lei 14.300 explicada para 2026, leia o guia detalhado.
O Que Muda Financeiramente Com o Net Metering em 2026
O net metering é o que torna o payback de um sistema solar calculável. Sem ele, a energia excedente não teria valor — e o dimensionamento do sistema seria completamente diferente (muito menor, apenas para autoconsumo imediato).
Com a chegada do Fio B a 60% em 2026, o valor efetivo do crédito no net metering foi reduzido. Um kWh que antes valia R$ 0,90 em crédito hoje equivale a cerca de R$ 0,72 após o desconto do Fio B — uma redução de 20%. Em 2028, quando o Fio B chegar a 100%, o valor efetivo do crédito cai mais.
Mesmo assim, o payback médio de sistemas residenciais no Brasil se mantém entre 4 e 7 anos segundo levantamento da Greener (1º semestre de 2025), porque o custo dos painéis também caiu nos últimos anos, compensando parcialmente a redução do valor dos créditos. A ABSOLAR estima que o Brasil deve alcançar 75,9 GW de potência solar instalada acumulada até o fim de 2026, o que demonstra que o setor segue em crescimento mesmo com a cobrança progressiva do Fio B.
Para calcular a economia real com base na sua conta de luz, veja o cálculo real para contas de R$ 300, R$ 500 e R$ 800.
Como Aproveitar Melhor os Créditos do Net Metering
Dimensione para o consumo, não para o telhado: Instalar mais painéis do que o necessário para “juntar créditos” é menos eficiente do que parece. Com o Fio B crescente, créditos acumulados valem progressivamente menos. O ideal é dimensionar o sistema para cobrir de 90% a 100% do consumo anual, sem grande sobra. Veja como calcular o tamanho correto do sistema solar antes de fechar qualquer orçamento.
Verifique se há consumo em outras unidades: Se você tem segundo imóvel, escritório ou parente próximo na mesma área de concessão da distribuidora, pode transferir créditos excedentes. Isso é mais eficiente do que deixar créditos acumulando com risco de vencimento.
Acompanhe sua conta após a ativação: Nas primeiras faturas após a ativação do SCEE, confira se os créditos estão sendo lançados corretamente. Erros de cadastro são comuns e podem passar despercebidos por meses. A distribuidora deve retroativo os créditos em caso de falha comprovada.
Guarde os extratos de crédito: A distribuidora disponibiliza extrato de créditos acumulados na conta ou no aplicativo. Guarde esses registros — em caso de troca de distribuidora (fusão, concessão vencida) ou de mudança de endereço, o histórico de créditos pode ser necessário para reclamar portabilidade.

Net Metering Ainda Compensa em 2026?
Sim — mas o cenário é diferente do que era até 2022. A combinação de Fio B crescente e possível tarifa binômia está reduzindo o valor efetivo dos créditos de compensação ao longo do tempo.
Para quem instala agora: o retorno ainda é positivo, com payback entre 4 e 7 anos para sistemas residenciais bem dimensionados. O Fio B a 60% em 2026 já está precificado nas simulações dos instaladores sérios — o problema são os que ainda usam simulações antigas sem considerar essa cobrança. Para uma análise completa de quanto vale a pena a energia solar em 2026 com números reais por perfil de consumo, veja o guia específico.
Para quem já instalou antes de 2023: mantém a isenção total do Fio B por 25 anos como direito adquirido. Não há nada a fazer — apenas acompanhar eventuais mudanças regulatórias que possam afetar esse direito, o que seria uma quebra de contrato com os investidores que a ANEEL tem resistido até agora.

Uma Reflexão Para Quem Está Pesquisando
O net metering foi desenhado para tornar a energia solar acessível para pequenos geradores. À medida que o sistema cresce e representa parcela maior da matriz elétrica brasileira, as distribuidoras pressionam por mudanças nas regras — o Fio B é a primeira delas, e a tarifa binômia pode ser a segunda.
A pergunta que fica é: o que muda para quem instala hoje se as regras do net metering mudarem nos próximos 5 anos? Sistemas instalados antes de janeiro de 2023 têm proteção de 25 anos. Sistemas novos estão sujeitos ao cronograma do Fio B — mas ainda não há legislação que altere o mecanismo básico de compensação em kWh.
Acompanhar o andamento das medidas provisórias do setor elétrico pelo Portal da Câmara dos Deputados e as revisões da Resolução Normativa ANEEL 1.000 é o melhor que um consumidor pode fazer para tomar decisões mais informadas sobre quando e quanto investir em energia solar.

Pesquisador independente sobre energia residencial. Bacharel em Administração
(FAEMA) e Executive MBA pela FGV. Escreve sobre energia solar com base em
fontes oficiais e na operação do próprio sistema fotovoltaico instalado em
casa. Não atua como engenheiro nem instalador.